sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Impressões sobre a audiência pública sobre parto humanizado no Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul


Campo Grande, 20 de agosto de 2014
Composição da mesa: Dr. Paulo Ito (médico obstetra), Msc. Angela Rios (apoiadora temática Rede Cegonha), Msc. Raquel Marques (Associação Artemis), Dra. Jaceguara Dantas da Silva Passos (Promotora), Dr. Wilson Ayach (médico obstetra)

É trabalhoso entender que o que foi ensinado na faculdade mudou e que precisamos estudar denovo, nos atualizar e praticar a assistência centrada na pessoa que está sendo assistida, no princípio de não causar dano e na autonomia do sujeito.
É doloroso perceber que a rotina do trabalho nos tornou frios e violentos, praticando uma assistência ineficaz e que gera traumas tão profundos que nossa sociedade hoje simplesmente perdeu a capacidade de lidar com o fenômeno da gestação e nascimento natural.
É revoltante ouvir relatos de violência obstétrica, relatos de uma assistência indigna prestada por nós e nossos colegas, mesmo sabendo que muitas vezes nós fazemos o melhor que podemos, em uma rotina desgastante que lida diariamente com a subjetividade do ser humano e com a fragilidade da saúde pública.
É cansativo ter que ler as recomendações da OMS, evidências científicas, meta-análises, e etc, entre um e outro plantão exaustivo em hospitais que muitas vezes não dão ao trabalhador condições de desenvolver suas habilidades, em processos de trabalho que são frustrantes por vários motivos que os trabalhadores da saúde tão bem conhecem.
Mas é preciso... e é urgente... não podemos perder o "timing" deste momento da construção das políticas de saúde para mulheres e recém-nascidos em nosso país. Momento este que há um investimento financeiro e de recursos humanos para a mudança do modelo de assistência à saúde materno-infantil no Brasil, conquistado após anos e anos de discussões políticas para a construção de um sistema de saúde de qualidade (Martins, 2014). Momento em que as mulheres se unem pela luta dos seus direitos, encontrando representatividade em entidades como a Parto do Princípio e a Artemis, que trocam informações pelas redes sociais e sentem-se chamadas a estarem presentes nos espaços e mostrar o que querem, carregando seus filhos, com lágrimas nos olhos, com relatos chocantes e comoventes sobre como foram atendidas na fase mais marcante da vida de uma família. Momento em que o poder judiciário se abre para discutir qual seu papel nesta questão, e como podem pressionar aqueles que receberam recursos de investimento, e que se comprometeram a cuidar da saúde das pessoas a realmente ajustarem suas condutas, cumprirem as leis, investirem em melhora dos ambientes, capacitação de suas equipes e processos de co-gestão para que tenhamos efetivos avanços no combate à violência obstétrica.
Da audiência saíram vários encaminhamentos. Tenho certeza que as entidades, profissionais e usuários que estiveram presentes e participaram ativamente das discussões entenderam que precisamos trabalhar juntos para mudar o cenário. Menos “mimimi” e mais trabalho árduo, mais rodas de conversas, mais espaços coletivos para discussão de casos específicos, que servem para chamar atenção aos problemas e abrirem-se propostas de soluções. Não será fácil, não será rápido, mas já podemos ver nas falas dos profissionais que a mudança de paradigmas faz sentido, traz reconhecimento e torna o trabalho mais prazeroso.
Àqueles que estão dispostos a dialogar sobre os avanços que conseguimos obter até o momento e os desafios para o que vem adiante, me coloco à disposição. Enquanto apoiadora do Ministério da Saúde, mas principalmente enquanto profissional da saúde e ativista, contem comigo. As experiências em vários municípios do Mato Grosso do Sul mostram que através do diálogo podemos efetivamente traçar um planejamento consistente e mudar o cenário atual da assistência obstétrica em cada local. Com base nos princípios e diretrizes da Política Nacional de Humanização, podemos tornar a rede de assistência menos fragmentada e mais resolutiva, melhorar as práticas de assistência para que profissionais e usuários sintam-se atendidos em suas necessidades quando estiverem em um serviço de saúde. E assim chegaremos à meta final de todo esse trabalho: reduzir morbi-mortalidade materna e neonatal, melhorar as relações de vínculos familiares, melhorar as condições de trabalho e dar autonomia às mulheres sobre seus corpos e seus processos de saúde e doença.
Quando as pessoas reclamam dos termos "parto humanizado", "boas práticas", "más práticas", "violência obstétrica", na verdade elas estão se esquivando de uma discussão profunda a que esses termos se referem. Não há como fugir! Este assunto sempre irá incomodar, provocar desconforto, e eu não devemos perder um tempo precioso de diálogo sobre o modelo de assistência que temos no Brasil, medicalizante, machista, fragmentado e pouco resolutivo discutindo se podemos usar ou não esta ou aquela palavra. Podemos mudar os termos, mas não vamos nos prender a detalhes e fugir desta discussão profunda e dolorosa, não podemos mais, não conseguiremos mais fugir desta mudança. Felizmente!
Desde 2003 temos estabelecida no Brasil uma Política Nacional de Humanização, que se pauta em três princípios: inseparabilidade entre a atenção e a gestão dos processos de produção de saúde, transversalidade e autonomia protagonismo dos sujeitos. Construída “de baixo pra cima” através de muito debate nos Conselhos de Saúde, entidade tripartite que dá base às políticas públicas de saúde neste país, e é nos termos desta política, transversal à todas as outras ações de saúde, que baseamos nossos argumentos e nossos métodos de trabalho.
Humanização não se resolve somente com medidas educativas, elas são importantes sim, fundamentais inclusive, mas a humanização também necessita de espaços adequados para o cuidado, relações profissionais éticas e inclusivas, contratos de trabalho justos e que qualifiquem o profissional. Ainda temos um longo caminho pela frente, mas foi excelente participar desse marco histórico e ver que temos grandes possibilidades de mudança, através do movimento social, poder judiciário, trabalhadores, gestores e usuários. Estamos junto, e ainda há muito mais por vir. Pelo SUS que dá certo!
Angela Rios
Apoiadora temática da Rede Cegonha para o Mato Grosso do Sul

Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Acolhimento nas práticas de produção de saúde. 2ª. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
BRASIL. Ministério da Saúde. Gestão participativa e cogestão. Brasília: Ministério da Saúde, 2010a.
BRASIL. Ministério da Saúde. Humanizasus: documento base para gestores e trabalhadores do SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2008.
MARTINS, Cátia Paranhos et al. Humanização do parto e nascimento: pela gestação de formas de vida das quais possamos ser protagonistas. Cadernos Humanizasus, Brasília, Df, v. 4, p.10-18, 2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Parto Humanizado - oficina de sensibilização para profissionais da atenção básica

-Post originalmente publicado na Rede HumanizaSus

Foram dois dias de trabalho com a missão de sensibilizar profissionais das Unidades Básica de Saúde (UBS) e Equipes de Saúde da Família (ESF) de Fátima do Sul (dia 13/02) e Dourados (dia 14/02) sobre o objetivo principal da Rede Cegonha: a mudança do modelo de assistência ao parto no Brasil, o que chamamos de “Parto Humanizado”. Para atingir o objetivo de sensibilização, convidei para facilitar a oficina junto comigo a pedagoga e doula Fernanda Leite, que tem a habilidade de inserir momentos de descontração e reflexão “pegando o gancho” do discurso técnico-teórico do qual eu me encarrego.


As oficinas começaram com uma apresentação em roda. Cada participante deveria apresentar-se com os seguintes dados: Nome, como nasceu, como nasceram seus filhos (se tiver), e uma palavra para parto. Neste momento, percebi o que parecia certo: os profissionais da saúde em sua maioria nasceram de cesárea e principalmente, tiveram seus filhos por cesarianas agendadas. As palavras para parto variaram desde “amor”, “felicidade”, “natureza” até “medo”, “a dor da morte”, e uma das mais repetidas, especialmente em Dourados: “escolha”. As profissionais acreditam que o parto deve ser uma questão de escolha da mulher, a maioria delas sente-se satisfeitas em terem tido cesariana e acreditam que o direito de escolha deveria ser oferecido para todas as mulheres.

Ora, se os profissionais do SUS, que estão na ponta atendendo as mulheres, adolescentes e famílias no pré-natal acreditam que a cesariana é a melhor via de nascimento, fica claro porque o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Ministério da Saúde há mais de uma década para redução das cesarianas no Brasil não está tendo sucesso. Em 2000, ano da a taxa de cesariana era 38,9%, os resultados publicados mais recentes (2010) apontam que o índice aumentou para 52,3% das crianças brasileiras nascidas por cesariana.

Se a base que sustenta a mudança de práticas é a qualificação e valorização dos profissionais envolvidos com o cuidado, não basta dizer que precisamos reduzir cesarianas, é preciso que as pessoas entendam que o conceito de parto normal mudou, e que o tipo de parto conhecido por estes profissionais não é o estimulado pelo Ministério da Saúde. Do contrário, corremos o risco de sermos tomados como hipócritas ou completos ignorantes da realidade obstétrica – afinal, a maioria das pessoas que estudou ou trabalhou em um centro obstétrico tradicional entende o parto normal como algo que deve ser evitado, combatido, eliminado.

Na roda de conversa, falamos sobre os conceitos de violência obstétrica, e o modelo clássico de assistência obstétrica no Brasil: “Ocitocina na veia, tricotomia, enema, posição de litotomia, episiotomia, kristeler...”. A maioria daquelas profissionais não conhecia outra forma de parto, por isso a luta pela redução das cesarianas não faz sentido para elas. Agora elas conhecem.

“Na faculdade eu aprendi a teoria sobre parto humanizado. Mas quando fui para o estágio, vi que nada do que era aprendido na sala de aula era real. Passei a acreditar que o parto é perigoso e violento e nunca mais refleti sobre isso – até hoje.”

“Estou surpresa por saber que tudo o que eu fazia estava errado. Eu aprendi tudo errado.”

“Por várias vezes eu amarrei as pernas das mulheres na perneira da sala de parto. Não sabia que isso era violência obstétrica.”

“Eu tive meus filhos de parto normal. As pessoas têm que saber que parto é dor! Você vai para o inferno e volta! Mas depois acaba a dor e você nem lembra.”

Um dos assuntos abordados na roda foi o direito a escolha. Discutimos sobre as escolhas baseadas em informação e respeito à decisão da mulher, mas principalmente sobre a necessidade de mudarmos o sistema de saúde para que haja realmente opções a escolher, já que na realidade as gestantes fogem do parto normal violento correndo para a cesariana eletiva asséptica, sem respeito ao corpo da mulher e do bebê – a banalização da cesariana e a realidade da “falta de escolha”. As mulheres falaram sobre suas cesarianas agendadas por conveniência médica ou indicações falsas, que foram aceitas por falta de informação ou, como acreditam elas, por escolha.

 “Eu queria parto normal, mas tive o azar de entrar em trabalho de parto no dia do casamento da filha do médico. Meu trabalho de parto estava evoluindo bem, mas as 17 horas ele me disse que tinha compromisso e que precisava resolver logo aquilo. E me fez uma cesárea.”

“Eu já tinha uma cesárea anterior, e na segunda gravidez o médico já não estava atendendo partos pelo meu plano de saúde, mas disse que abriria uma exceção para mim, que já era paciente antiga, mas ele só poderia fazer meu parto na terça ou na quinta, escolhi a data e fiz a cesariana.”

“Tive duas cesáreas que foram necessárias, pois minhas gravidezes eram muito problemáticas. Na primeira o bebê estava com o cordão enrolado, e na segunda eu tive pré-eclâmpsia, então fiz laqueadura, pois meu médico disse que eu não deveria mais engravidar.”

Conversamos também sobre o modelo obstétrico que pretendemos implantar no Brasil, exemplificando com experiências de sucesso de países em que os partos são cuidados como processos fisiológicos, assistência feita por enfermeiras obstetras, casas de parto, baixos índices de cesariana, reduzidas taxas de mortes maternas e neonatais. Entendemos que é fundamental para a mudança de paradigma que os partos sejam tratados com respeito, privacidade e segurança, e os conceitos de quartos PPP, métodos não-farmacológicos de alívio da dor, acesso à analgesia farmacológica, papel do acompanhante, alimentação, exercícios e liberdade de posição durante o trabalho de parto e parto, contato pele-a-pele e formação do vínculo na primeira hora pós-parto. Alguns dos participantes deram depoimentos sobre suas experiências.

“Eu tinha 16 anos e fui para o hospital sem saber nada sobre parto, foi horrível tudo o que aconteceu, sofri muito, doeu muito e eu estava sozinha, as enfermeiras falavam que parto era assim mesmo e não fizeram nada para me ajudar. Depois que o bebê nasceu levaram para cuidar e quando trouxeram de volta eu não reconheci aquele bebê, ele era muito feio! Tudo aquilo por um bebê tão feio! Fiquei traumatizada”

“Meus 3 filhos nasceram por cesariana, por escolha da minha mulher. Eu assisti e participei do nascimento de todos eles. Foi muito importante para mim”

“Minha mãe teve 11 filhos, todos de parto natural e em casa, parto na minha família é uma coisa natural”

Nasci de cesariana. Minha mãe teve complicações pós-operatórias e ficou 3 meses na UTI após o parto, só fui conhecê-la com 3 meses de vida.”

A atenção primária tem como rotina as atividades em grupos, sendo uma das mais comuns os grupos de gestantes. Os profissionais relatam que é difícil a adesão de gestantes no grupo, o que só acontece com a barganha por brindes ou antes da consulta, na sala de espera. Falamos então sobre uma proposta de um outro formato do grupo de gestantes, com método de rodas de conversa, misturando idades gestacionais, paridades e experiências diferentes a serem compartilhadas com abordagem de temas que podem trazer autonomia e protagonismo para as mulheres como: sintomas de trabalho de parto e parto, preparação do acompanhante para o parto, violência obstétrica, métodos de alívio dos desconfortos da gravidez, métodos não farmacológicos de alívio da dor no trabalho de parto, dentre outros. Sabemos que estes assuntos não estão apropriados pelos profissionais, então, como eles poderiam conduzir rodas de conversa?

Fizemos um resgate sobre os sinais e sintomas de trabalho de parto, a fisiologia do parto e as orientações que devem ser focadas nos grupos de gestantes das unidades de saúde. Praticamos alguns exercícios que promovem a saúde e o bem-estar das mulheres durante a gravidez, sendo esse o principal “brinde” a ser oferecido por um grupo de gestantes: aprender massagens, exercícios perineais, alongamentos de tronco e exercícios respiratórios. Permeando os diálogos e reflexões a respeito do parto, inserimos algumas dinâmicas com roda, dança e música, para descontrair o grupo e tornar o ambiente mais leve para o trabalho.


Ao final, fizemos uma roda de avaliação com os profissionais, que responderam em unanimidade que a oficina foi muito proveitosa para o entendimento da proposta do “parto humanizado” e de seu papel na mudança de modelo. O método de roda, com dinâmicas e em um parque ao ar livre foi fundamental para tocarmos no ponto sensível de cada um.


Os investimentos feitos pela Rede Cegonha na qualificação do pré-natal somente serão bem aplicados se os profissionais estiverem sensibilizados e entenderem seu papel nesta mudança de práticas. A expectativa é de educação continuada em várias oficinas que abordem cada um dos temas passados rapidamente nesta primeira experiência. Os profissionais querem e precisam saber mais sobre violência obstétrica, métodos de alívio da dor, plano de parto, dentre outros assuntos que podem fortalecer o trabalho da atenção básica para um pré-natal de qualidade.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Parto Natural ou Cesariana: Sim, você tem direito de escolher.

Cada uma decide o que é melhor para si, não devemos julgar uma mulher que opta por uma cesariana, pois ela leva em consideração seu estilo de vida, suas experiências e suas prioridades. É muito comum as justificativas de mulheres que optam pela cesariana como forma de evitar a dor do parto, resolver logo a gravidez que deixa o corpo pesado e cansado, acabar com a ansiedade para ver a carinha do bebê, preservar a integridade do “playground”, aproveitar a sexta-feira para prolongar a licença-paternidade e facilitar as visitas... cada uma tem seu motivo. Se a mulher está sentindo-se segura, e acredita que este é o melhor para si e para o bebê, que bom pra ela! Mesmo. Porque ela não terá dificuldade em fazer valer sua decisão, não haverá barreiras para ser atendida conforme sua expectativa.

O senso comum brasileiro:
"apenas um pequeno corte"
Em muitos países não é permitido escolher pela cesariana, pois o parto é tratado como um evento fisiológico, com respeito e dignidade, e para submeter-se a uma cirurgia é necessário haver uma justificativa clínica, e isso é reconhecido tanto entre os serviços e profissionais de saúde quando entre as mulheres e a sociedade. No Brasil não é assim. Somos muito mais democráticos e liberais, e as mulheres podem escolher como trazer seu filho ao mundo, não é mesmo?




Campanha anti-cesariana no Reino Unido. "Ainda acha que cesariana não é grande coisa?"

No Brasil não é difícil optar por uma cesariana. Se a grávida não tiver um bom motivo, é fácil para o médico arrumar uma indicação clínica para a cesariana eletiva (que só é indicação para cesariana nessas terras tupiniquins): a placenta velha, o cordão enrolado no pescoço do bebê, a pressão está alterando, o bebê grande, 40 semanas... Para quem tem plano de saúde não há dificuldade alguma, e até mesmo nos serviços do SUS, com o jeitinho brasileiro, não é difícil justificar uma cesariana.


A coisa fica difícil quando a mulher decide optar pelo parto natural.

Porque essa mulher precisa estar muito bem informada, e sabe que escolher a forma de nascimento do seu filho envolve muito mais responsabilidade, empoderamento e protagonismo do que simplesmente escolher uma data e local. Essa mulher sabe que a grande maioria das justificativas para cesariana é falsa, é potencialmente perigosa para ela e principalmente para o bebê, ela sabe que interferir na natureza pode acarretar muitas complicações e decide que não quer isso para si.

É aí que começa a batalha...


Essa mulher precisa entender também que o sistema de saúde  brasileiro padrão não está pronto para suas necessidades. Que a grande maioria dos profissionais não sabem atender um parto sem intervir, e para encontrar um profissional que a respeite e lhe transmita confiança ela terá que procurar como “agulha no palheiro” durante o pré-natal. E será ainda mais difícil encontrar um lugar para ter seu filho com respeito e privacidade. Na maior parte do Brasil ainda não existem lugares assim. E é por isso que apenas 10% das usuárias de planos de saúde conseguem ter parto normal. Não existe um controle das intervenções realizadas no parto, mas é certo que muitas destas mulheres são submetidas à muitos procedimentos desnecessários, inclusive a temida episiotomia.

Além dos desafios para encontrar o profissional e o serviço que respeite sua vontade de dar à luz naturalmente, para superar a pressão social e médica de agendar a cesariana, a grávida precisa entrar numa “bolha”, e para os que estão fora dessa bolha ela parece radical demais, chata demais, exigente demais... quando na verdade o que ela quer é apenas um parto natural, sem intervenções, ela só quer parir em paz!


Ela só quer parir em paz!!

Isso NÃO é parto natural! NINGUÉM quer escolher essa opção!
Então, caros amigos, quando falamos de respeito à autonomia e decisão da mulher, qual será a escolha mais fácil para ela? 
E se falamos em escolha, estamos realmente dando opções para a decisão? Quem está escolhendo, afinal?

Se damos à mulher a opção de escolher entre um parto com dor, drogas e cortes ou uma cesariana asséptica, na verdade não há nenhuma opção...





terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Para que serve um GRUPO DE GESTANTES?

Você conhece "Os 8 objetivos do Milênio" da Organização das Nações Unidas (ONU)? (se não conhece, clique aqui)

Um dos objetivos do Milênio é MELHORAR A SAÚDE DAS GESTANTES e reduzir a taxa de mortalidade materna.

SUGESTÕES DE AÇÕES:
  • Fazer campanhas sobre:
    • -Planejamento familiar.
    • -Prevenção do câncer de mama e de colo de útero.
    • -Gravidez de risco.
    • -A importância do exame pré-natal.
    • -Nutrição da mãe e aleitamento materno.
  • Não se automedicar e não receitar remédios para gestantes.
  • Propiciar um ambiente agradável, afetivo e pacífico às gestantes em casa, no trabalho, no dia a dia, dando prioridade a elas, cedendo a vez em filas, auxiliando-as em seu deslocamento e no carregamento de pacotes.
  • Presentear uma grávida em situação de desvantagem social com um enxoval para seu bebê.
  • Acompanhar uma gestante, garantindo a realização do pré-natal, oferecendo transporte para as consultas e facilitando a aquisição de medicamentos, quando necessário.
  • Divulgar informações sobre saúde para gestantes e articular palestras em Postos de Saúde, Centros Comunitários e instituições como a Pastoral da Criança.
  • Participar de iniciativas comunitárias voltadas para a melhoria da saúde materna e o atendimento à gestante (pré-natal e pós-parto).
  • Incentivar o debate entre a universidade, a escola e a comunidade.
  • Reunir mulheres grávidas para troca de experiências.
  • Incentivar a educação para gestantes.

Já trabalho há um tempinho com gestantes, posso dizer que já vi, já participei e já organizei diversos trabalhos voltados para esse público. Um dos mais comuns e fáceis de achar por aí são os "grupos de gestantes". E a parte mais difícil é ter público para um grupo de gestantes.

PORQUÊ SERÁ??

Porque esses grupos, em sua maioria, são organizados por profissionais da saúde (donos do saber) para reunir gestantes para transmitir informações que não fazem diferença nenhuma na vida dela, ou são mais fáceis de obter lendo na internet, ou com a vizinha, com a tia, com a mãe. Uma completa perda de tempo para a mulher que está grávida, mas não só grávida - trabalha, tem outros filhos, cuida da casa e tantas outras tarefas... 

E principalmente perda de uma preciosa oportunidade de reunir mulheres para falar do seu corpo, suas angústias, suas experiências e trocarem informações entre si (com o apoio sempre relevante de um profissional da saúde)

Quer um exemplo? Olha a programação de um grupo de gestantes organizado por uma operadora de plano de saúde bem conhecida:

Claro que pelo primeiro tópico de abertura dos encontros já dá para perceber qual e a prioridade, não é?

Na minha opinião, se há uma reunião de gestantes, é preciso aproveitar a oportunidade para falar de:

Pois é, mas acho que estas informações trariam muito empoderamento às mulheres, não é? Traria saúde, não é? Acho melhor não...

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

É preciso apoio para amamentar!

Para movimentar a semana mundial de aleitamento materno (1 a 7 de agosto) foi proposta uma campanha de blogagem coletiva propõe a divulgação e valorização do aleitamento materno nos blogs A pergunta está no ar: Porquê eu sou ativista da amamentação?

Então vou contar minha experiência...

Amamentei por 1 ano e 11 meses. Desde a gravidez tinha a certeza de que queria amamentar meu filho pelo maior tempo possível. Até os 6 meses foi aleitamento materno exclusivo MESMO! Nada de água ou chás para ele... Após os 6 meses a introdução dos alimentos foi gradual, havia dias em que ele não aceitava a fruta ou a papinha, e eu sempre estive segura de que com o leite materno ele estava bem nutrido. O desmame foi acontecendo aos poucos, sem traumas. Pouco antes dos 2 anos ele deixou de mamar, mas até hoje tem uma ligação muito forte com o meu seio. Meu corpo ainda é o porto seguro para ele.

Mas nem sempre a amamentação foi um mar de rosas... e foi graças ao APOIO que recebi da minha FAMÍLIA e dos PROFISSIONAIS da saúde que eu consegui superar as dificuldades.

O primeiro mês foi muito difícil... tive fissura no mamilo e sentia muita dor. Esse período foi um período de sombras pra mim. Me mantive firme no meu objetivo de amamentar graças à minha doula pós-parto (minha mãe) que me deu forças, paciência, chá, água e bolo durante as mamadas doloridas.
Foi muito importante o apoio do meu marido, que mesmo perdido sem saber como agir teve atitudes que significaram muito: colocava músicas pra eu ouvir, sentava ao meu lado quieto e sem julgamentos durante a mamada e entendeu que naquele momento era muito importante o conforto, a privacidade, o silêncio e até um certo isolamento... Quase não saia do quarto, recebi poucas visitas, estava voltada para superar aquele desafio.

Foi muito importante o apoio do Banco de Leite de Dourados, que no dia que meu leite desceu e empedrou tiveram a postura que se espera daquelas profissionais: orientação, empatia e encorajamento. Tanto que hoje me sinto um pouco parte daquela equipe. (um beijo no coração da Tailci, Simone, Newelen, Juliany e Antonio Marinho)

Depois desse primeiro mês tudo passou e então eu pude ver a mágica acontecer. Aos poucos fui ficando segura para amamentar em público, para amamentar em diversas posições. Tive muito, muito leite... doei muito leite e sinto muito orgulho disso. Muitas vezes enquanto eu estava amamentando pensava no poder da Deusa que mora em mim, que é capaz de produzir o alimento completo para nutrir uma vida em desenvolvimento.


Amamentar é muito bom!! Desejo isso para todas as mulheres e para todos os bebês!