domingo, 16 de fevereiro de 2014

Parto Humanizado - oficina de sensibilização para profissionais da atenção básica

-Post originalmente publicado na Rede HumanizaSus

Foram dois dias de trabalho com a missão de sensibilizar profissionais das Unidades Básica de Saúde (UBS) e Equipes de Saúde da Família (ESF) de Fátima do Sul (dia 13/02) e Dourados (dia 14/02) sobre o objetivo principal da Rede Cegonha: a mudança do modelo de assistência ao parto no Brasil, o que chamamos de “Parto Humanizado”. Para atingir o objetivo de sensibilização, convidei para facilitar a oficina junto comigo a pedagoga e doula Fernanda Leite, que tem a habilidade de inserir momentos de descontração e reflexão “pegando o gancho” do discurso técnico-teórico do qual eu me encarrego.


As oficinas começaram com uma apresentação em roda. Cada participante deveria apresentar-se com os seguintes dados: Nome, como nasceu, como nasceram seus filhos (se tiver), e uma palavra para parto. Neste momento, percebi o que parecia certo: os profissionais da saúde em sua maioria nasceram de cesárea e principalmente, tiveram seus filhos por cesarianas agendadas. As palavras para parto variaram desde “amor”, “felicidade”, “natureza” até “medo”, “a dor da morte”, e uma das mais repetidas, especialmente em Dourados: “escolha”. As profissionais acreditam que o parto deve ser uma questão de escolha da mulher, a maioria delas sente-se satisfeitas em terem tido cesariana e acreditam que o direito de escolha deveria ser oferecido para todas as mulheres.

Ora, se os profissionais do SUS, que estão na ponta atendendo as mulheres, adolescentes e famílias no pré-natal acreditam que a cesariana é a melhor via de nascimento, fica claro porque o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Ministério da Saúde há mais de uma década para redução das cesarianas no Brasil não está tendo sucesso. Em 2000, ano da a taxa de cesariana era 38,9%, os resultados publicados mais recentes (2010) apontam que o índice aumentou para 52,3% das crianças brasileiras nascidas por cesariana.

Se a base que sustenta a mudança de práticas é a qualificação e valorização dos profissionais envolvidos com o cuidado, não basta dizer que precisamos reduzir cesarianas, é preciso que as pessoas entendam que o conceito de parto normal mudou, e que o tipo de parto conhecido por estes profissionais não é o estimulado pelo Ministério da Saúde. Do contrário, corremos o risco de sermos tomados como hipócritas ou completos ignorantes da realidade obstétrica – afinal, a maioria das pessoas que estudou ou trabalhou em um centro obstétrico tradicional entende o parto normal como algo que deve ser evitado, combatido, eliminado.

Na roda de conversa, falamos sobre os conceitos de violência obstétrica, e o modelo clássico de assistência obstétrica no Brasil: “Ocitocina na veia, tricotomia, enema, posição de litotomia, episiotomia, kristeler...”. A maioria daquelas profissionais não conhecia outra forma de parto, por isso a luta pela redução das cesarianas não faz sentido para elas. Agora elas conhecem.

“Na faculdade eu aprendi a teoria sobre parto humanizado. Mas quando fui para o estágio, vi que nada do que era aprendido na sala de aula era real. Passei a acreditar que o parto é perigoso e violento e nunca mais refleti sobre isso – até hoje.”

“Estou surpresa por saber que tudo o que eu fazia estava errado. Eu aprendi tudo errado.”

“Por várias vezes eu amarrei as pernas das mulheres na perneira da sala de parto. Não sabia que isso era violência obstétrica.”

“Eu tive meus filhos de parto normal. As pessoas têm que saber que parto é dor! Você vai para o inferno e volta! Mas depois acaba a dor e você nem lembra.”

Um dos assuntos abordados na roda foi o direito a escolha. Discutimos sobre as escolhas baseadas em informação e respeito à decisão da mulher, mas principalmente sobre a necessidade de mudarmos o sistema de saúde para que haja realmente opções a escolher, já que na realidade as gestantes fogem do parto normal violento correndo para a cesariana eletiva asséptica, sem respeito ao corpo da mulher e do bebê – a banalização da cesariana e a realidade da “falta de escolha”. As mulheres falaram sobre suas cesarianas agendadas por conveniência médica ou indicações falsas, que foram aceitas por falta de informação ou, como acreditam elas, por escolha.

 “Eu queria parto normal, mas tive o azar de entrar em trabalho de parto no dia do casamento da filha do médico. Meu trabalho de parto estava evoluindo bem, mas as 17 horas ele me disse que tinha compromisso e que precisava resolver logo aquilo. E me fez uma cesárea.”

“Eu já tinha uma cesárea anterior, e na segunda gravidez o médico já não estava atendendo partos pelo meu plano de saúde, mas disse que abriria uma exceção para mim, que já era paciente antiga, mas ele só poderia fazer meu parto na terça ou na quinta, escolhi a data e fiz a cesariana.”

“Tive duas cesáreas que foram necessárias, pois minhas gravidezes eram muito problemáticas. Na primeira o bebê estava com o cordão enrolado, e na segunda eu tive pré-eclâmpsia, então fiz laqueadura, pois meu médico disse que eu não deveria mais engravidar.”

Conversamos também sobre o modelo obstétrico que pretendemos implantar no Brasil, exemplificando com experiências de sucesso de países em que os partos são cuidados como processos fisiológicos, assistência feita por enfermeiras obstetras, casas de parto, baixos índices de cesariana, reduzidas taxas de mortes maternas e neonatais. Entendemos que é fundamental para a mudança de paradigma que os partos sejam tratados com respeito, privacidade e segurança, e os conceitos de quartos PPP, métodos não-farmacológicos de alívio da dor, acesso à analgesia farmacológica, papel do acompanhante, alimentação, exercícios e liberdade de posição durante o trabalho de parto e parto, contato pele-a-pele e formação do vínculo na primeira hora pós-parto. Alguns dos participantes deram depoimentos sobre suas experiências.

“Eu tinha 16 anos e fui para o hospital sem saber nada sobre parto, foi horrível tudo o que aconteceu, sofri muito, doeu muito e eu estava sozinha, as enfermeiras falavam que parto era assim mesmo e não fizeram nada para me ajudar. Depois que o bebê nasceu levaram para cuidar e quando trouxeram de volta eu não reconheci aquele bebê, ele era muito feio! Tudo aquilo por um bebê tão feio! Fiquei traumatizada”

“Meus 3 filhos nasceram por cesariana, por escolha da minha mulher. Eu assisti e participei do nascimento de todos eles. Foi muito importante para mim”

“Minha mãe teve 11 filhos, todos de parto natural e em casa, parto na minha família é uma coisa natural”

Nasci de cesariana. Minha mãe teve complicações pós-operatórias e ficou 3 meses na UTI após o parto, só fui conhecê-la com 3 meses de vida.”

A atenção primária tem como rotina as atividades em grupos, sendo uma das mais comuns os grupos de gestantes. Os profissionais relatam que é difícil a adesão de gestantes no grupo, o que só acontece com a barganha por brindes ou antes da consulta, na sala de espera. Falamos então sobre uma proposta de um outro formato do grupo de gestantes, com método de rodas de conversa, misturando idades gestacionais, paridades e experiências diferentes a serem compartilhadas com abordagem de temas que podem trazer autonomia e protagonismo para as mulheres como: sintomas de trabalho de parto e parto, preparação do acompanhante para o parto, violência obstétrica, métodos de alívio dos desconfortos da gravidez, métodos não farmacológicos de alívio da dor no trabalho de parto, dentre outros. Sabemos que estes assuntos não estão apropriados pelos profissionais, então, como eles poderiam conduzir rodas de conversa?

Fizemos um resgate sobre os sinais e sintomas de trabalho de parto, a fisiologia do parto e as orientações que devem ser focadas nos grupos de gestantes das unidades de saúde. Praticamos alguns exercícios que promovem a saúde e o bem-estar das mulheres durante a gravidez, sendo esse o principal “brinde” a ser oferecido por um grupo de gestantes: aprender massagens, exercícios perineais, alongamentos de tronco e exercícios respiratórios. Permeando os diálogos e reflexões a respeito do parto, inserimos algumas dinâmicas com roda, dança e música, para descontrair o grupo e tornar o ambiente mais leve para o trabalho.


Ao final, fizemos uma roda de avaliação com os profissionais, que responderam em unanimidade que a oficina foi muito proveitosa para o entendimento da proposta do “parto humanizado” e de seu papel na mudança de modelo. O método de roda, com dinâmicas e em um parque ao ar livre foi fundamental para tocarmos no ponto sensível de cada um.


Os investimentos feitos pela Rede Cegonha na qualificação do pré-natal somente serão bem aplicados se os profissionais estiverem sensibilizados e entenderem seu papel nesta mudança de práticas. A expectativa é de educação continuada em várias oficinas que abordem cada um dos temas passados rapidamente nesta primeira experiência. Os profissionais querem e precisam saber mais sobre violência obstétrica, métodos de alívio da dor, plano de parto, dentre outros assuntos que podem fortalecer o trabalho da atenção básica para um pré-natal de qualidade.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Parto Natural ou Cesariana: Sim, você tem direito de escolher.

Cada uma decide o que é melhor para si, não devemos julgar uma mulher que opta por uma cesariana, pois ela leva em consideração seu estilo de vida, suas experiências e suas prioridades. É muito comum as justificativas de mulheres que optam pela cesariana como forma de evitar a dor do parto, resolver logo a gravidez que deixa o corpo pesado e cansado, acabar com a ansiedade para ver a carinha do bebê, preservar a integridade do “playground”, aproveitar a sexta-feira para prolongar a licença-paternidade e facilitar as visitas... cada uma tem seu motivo. Se a mulher está sentindo-se segura, e acredita que este é o melhor para si e para o bebê, que bom pra ela! Mesmo. Porque ela não terá dificuldade em fazer valer sua decisão, não haverá barreiras para ser atendida conforme sua expectativa.

O senso comum brasileiro:
"apenas um pequeno corte"
Em muitos países não é permitido escolher pela cesariana, pois o parto é tratado como um evento fisiológico, com respeito e dignidade, e para submeter-se a uma cirurgia é necessário haver uma justificativa clínica, e isso é reconhecido tanto entre os serviços e profissionais de saúde quando entre as mulheres e a sociedade. No Brasil não é assim. Somos muito mais democráticos e liberais, e as mulheres podem escolher como trazer seu filho ao mundo, não é mesmo?




Campanha anti-cesariana no Reino Unido. "Ainda acha que cesariana não é grande coisa?"

No Brasil não é difícil optar por uma cesariana. Se a grávida não tiver um bom motivo, é fácil para o médico arrumar uma indicação clínica para a cesariana eletiva (que só é indicação para cesariana nessas terras tupiniquins): a placenta velha, o cordão enrolado no pescoço do bebê, a pressão está alterando, o bebê grande, 40 semanas... Para quem tem plano de saúde não há dificuldade alguma, e até mesmo nos serviços do SUS, com o jeitinho brasileiro, não é difícil justificar uma cesariana.


A coisa fica difícil quando a mulher decide optar pelo parto natural.

Porque essa mulher precisa estar muito bem informada, e sabe que escolher a forma de nascimento do seu filho envolve muito mais responsabilidade, empoderamento e protagonismo do que simplesmente escolher uma data e local. Essa mulher sabe que a grande maioria das justificativas para cesariana é falsa, é potencialmente perigosa para ela e principalmente para o bebê, ela sabe que interferir na natureza pode acarretar muitas complicações e decide que não quer isso para si.

É aí que começa a batalha...


Essa mulher precisa entender também que o sistema de saúde  brasileiro padrão não está pronto para suas necessidades. Que a grande maioria dos profissionais não sabem atender um parto sem intervir, e para encontrar um profissional que a respeite e lhe transmita confiança ela terá que procurar como “agulha no palheiro” durante o pré-natal. E será ainda mais difícil encontrar um lugar para ter seu filho com respeito e privacidade. Na maior parte do Brasil ainda não existem lugares assim. E é por isso que apenas 10% das usuárias de planos de saúde conseguem ter parto normal. Não existe um controle das intervenções realizadas no parto, mas é certo que muitas destas mulheres são submetidas à muitos procedimentos desnecessários, inclusive a temida episiotomia.

Além dos desafios para encontrar o profissional e o serviço que respeite sua vontade de dar à luz naturalmente, para superar a pressão social e médica de agendar a cesariana, a grávida precisa entrar numa “bolha”, e para os que estão fora dessa bolha ela parece radical demais, chata demais, exigente demais... quando na verdade o que ela quer é apenas um parto natural, sem intervenções, ela só quer parir em paz!


Ela só quer parir em paz!!

Isso NÃO é parto natural! NINGUÉM quer escolher essa opção!
Então, caros amigos, quando falamos de respeito à autonomia e decisão da mulher, qual será a escolha mais fácil para ela? 
E se falamos em escolha, estamos realmente dando opções para a decisão? Quem está escolhendo, afinal?

Se damos à mulher a opção de escolher entre um parto com dor, drogas e cortes ou uma cesariana asséptica, na verdade não há nenhuma opção...





terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Para que serve um GRUPO DE GESTANTES?

Você conhece "Os 8 objetivos do Milênio" da Organização das Nações Unidas (ONU)? (se não conhece, clique aqui)

Um dos objetivos do Milênio é MELHORAR A SAÚDE DAS GESTANTES e reduzir a taxa de mortalidade materna.

SUGESTÕES DE AÇÕES:
  • Fazer campanhas sobre:
    • -Planejamento familiar.
    • -Prevenção do câncer de mama e de colo de útero.
    • -Gravidez de risco.
    • -A importância do exame pré-natal.
    • -Nutrição da mãe e aleitamento materno.
  • Não se automedicar e não receitar remédios para gestantes.
  • Propiciar um ambiente agradável, afetivo e pacífico às gestantes em casa, no trabalho, no dia a dia, dando prioridade a elas, cedendo a vez em filas, auxiliando-as em seu deslocamento e no carregamento de pacotes.
  • Presentear uma grávida em situação de desvantagem social com um enxoval para seu bebê.
  • Acompanhar uma gestante, garantindo a realização do pré-natal, oferecendo transporte para as consultas e facilitando a aquisição de medicamentos, quando necessário.
  • Divulgar informações sobre saúde para gestantes e articular palestras em Postos de Saúde, Centros Comunitários e instituições como a Pastoral da Criança.
  • Participar de iniciativas comunitárias voltadas para a melhoria da saúde materna e o atendimento à gestante (pré-natal e pós-parto).
  • Incentivar o debate entre a universidade, a escola e a comunidade.
  • Reunir mulheres grávidas para troca de experiências.
  • Incentivar a educação para gestantes.

Já trabalho há um tempinho com gestantes, posso dizer que já vi, já participei e já organizei diversos trabalhos voltados para esse público. Um dos mais comuns e fáceis de achar por aí são os "grupos de gestantes". E a parte mais difícil é ter público para um grupo de gestantes.

PORQUÊ SERÁ??

Porque esses grupos, em sua maioria, são organizados por profissionais da saúde (donos do saber) para reunir gestantes para transmitir informações que não fazem diferença nenhuma na vida dela, ou são mais fáceis de obter lendo na internet, ou com a vizinha, com a tia, com a mãe. Uma completa perda de tempo para a mulher que está grávida, mas não só grávida - trabalha, tem outros filhos, cuida da casa e tantas outras tarefas... 

E principalmente perda de uma preciosa oportunidade de reunir mulheres para falar do seu corpo, suas angústias, suas experiências e trocarem informações entre si (com o apoio sempre relevante de um profissional da saúde)

Quer um exemplo? Olha a programação de um grupo de gestantes organizado por uma operadora de plano de saúde bem conhecida:

Claro que pelo primeiro tópico de abertura dos encontros já dá para perceber qual e a prioridade, não é?

Na minha opinião, se há uma reunião de gestantes, é preciso aproveitar a oportunidade para falar de:

Pois é, mas acho que estas informações trariam muito empoderamento às mulheres, não é? Traria saúde, não é? Acho melhor não...

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

É preciso apoio para amamentar!

Para movimentar a semana mundial de aleitamento materno (1 a 7 de agosto) foi proposta uma campanha de blogagem coletiva propõe a divulgação e valorização do aleitamento materno nos blogs A pergunta está no ar: Porquê eu sou ativista da amamentação?

Então vou contar minha experiência...

Amamentei por 1 ano e 11 meses. Desde a gravidez tinha a certeza de que queria amamentar meu filho pelo maior tempo possível. Até os 6 meses foi aleitamento materno exclusivo MESMO! Nada de água ou chás para ele... Após os 6 meses a introdução dos alimentos foi gradual, havia dias em que ele não aceitava a fruta ou a papinha, e eu sempre estive segura de que com o leite materno ele estava bem nutrido. O desmame foi acontecendo aos poucos, sem traumas. Pouco antes dos 2 anos ele deixou de mamar, mas até hoje tem uma ligação muito forte com o meu seio. Meu corpo ainda é o porto seguro para ele.

Mas nem sempre a amamentação foi um mar de rosas... e foi graças ao APOIO que recebi da minha FAMÍLIA e dos PROFISSIONAIS da saúde que eu consegui superar as dificuldades.

O primeiro mês foi muito difícil... tive fissura no mamilo e sentia muita dor. Esse período foi um período de sombras pra mim. Me mantive firme no meu objetivo de amamentar graças à minha doula pós-parto (minha mãe) que me deu forças, paciência, chá, água e bolo durante as mamadas doloridas.
Foi muito importante o apoio do meu marido, que mesmo perdido sem saber como agir teve atitudes que significaram muito: colocava músicas pra eu ouvir, sentava ao meu lado quieto e sem julgamentos durante a mamada e entendeu que naquele momento era muito importante o conforto, a privacidade, o silêncio e até um certo isolamento... Quase não saia do quarto, recebi poucas visitas, estava voltada para superar aquele desafio.

Foi muito importante o apoio do Banco de Leite de Dourados, que no dia que meu leite desceu e empedrou tiveram a postura que se espera daquelas profissionais: orientação, empatia e encorajamento. Tanto que hoje me sinto um pouco parte daquela equipe. (um beijo no coração da Tailci, Simone, Newelen, Juliany e Antonio Marinho)

Depois desse primeiro mês tudo passou e então eu pude ver a mágica acontecer. Aos poucos fui ficando segura para amamentar em público, para amamentar em diversas posições. Tive muito, muito leite... doei muito leite e sinto muito orgulho disso. Muitas vezes enquanto eu estava amamentando pensava no poder da Deusa que mora em mim, que é capaz de produzir o alimento completo para nutrir uma vida em desenvolvimento.


Amamentar é muito bom!! Desejo isso para todas as mulheres e para todos os bebês!


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Boas práticas de atenção ao parto: o pior cego é o que não quer ver

Por: Angela Rios
Hoje, ao chegar do hospital, onde eu acabara de finalizar uma oficina de boas práticas de assistência ao parto com a participação da equipe da Rede Cegonha, encontrei minha mãe que vinha falando de sua vizinha: "Ela tem só 52 anos e deixou-se derrotar pela vida... diz que só dorme sob efeito de remédios fortíssimos, e usa também um coquetel diário para hipertensão, problemas na tireóide e depressão. Minha mãe a convidou para sua turma de hidroginástica, 3 vezes por semana as 7:00 horas da manhã, e ela se queixou de dores por todo o corpo, a impossibilidade de levantar tão cedo, o frio, a falta de maiô... minha mãe estava lamentando o quanto uma pessoa não vê o horizonte bem diante de si, não colabora para a mudança de si mesma, nem se quer aceita que outra pessoa pode ajudá-la, a vida é como é e ponto, não há nada a fazer". Cabe dizer que minha mãe, aos 59 anos, após sobreviver ao câncer de mama e seu tratamento devastador, é completamente saudável hoje, não toma nenhum medicamento, pratica atividade física todos os dias da semana e tem disposição de sobra pra brincar de pega-pega com o neto de 4 anos.

Mas o que isso tem a ver com parto?

No livro “Entre Orelhas”, Ric Jones diz que: “Ou mudamos radicalmente nossa atitude em direção à ecologia ampla e a relação com a natureza ou teremos uma humanidade tão doente que nem as cirurgis, vacinas e todas as drogas serão capazes de oferecer algum alívio”. Não há dúvidas que essa percepção de mundo começa no nascimento – e se mostra claramente no parto. Em hospitais privados, a taxa de cesariana beira os 100%, e isso é um sinal claro de doença. Ou a doença física da mãe, biológica da gravidez, ou a doença do medo, ou a doença da ansiedade, a doença da falta de informação, a doença do cordão enrolado, da bacia estreita, da calcificação da placenta... ou na doença do bebê que não consegue mamar, tem refluxo, icterícia, cólicas, restrição de crescimento...
Pois bem, vamos ao que interessa: estamos aqui para falar das boas práticas de assistência ao parto, que são, essencialmente:
  • Permitir a presença de acompanhante de livre escolha da mulher (o que gera muitas implicações, desde a acomodação, alimentação, vestuário até a conduta ética e técnica da equipe quando há uma testemunha na sala de parto)
  • Liberdade de posição para o parto, abolir a posição de litotomia (frango-assado)
  • Não realizar episiotomia e intervenções desnecessárias
  • Prover métodos para o alívio da dor, não farmacológicos (massagens, banhos, apoio físico e emocional) e farmacológicos (analgesia peridural)
Existem muitas pessoas pensando nestas boas práticas no mundo, existem inúmeros artigos com fortes evidências científicas. No Brasil, há uma grande equipe trabalhando pela Rede Cegonha especificamente na discussão destas práticas, há também as ativistas, grupos de apoio, alguns programas de televisão, vídeos, sites, blogs na internet. Muitas pessoas envolvidas mesmo! E há muitos anos!

As coisas estão mudando sim, mas muito lentamente, existem barreiras que parecem indestrutíveis. A principal barreira são os profissionais da saúde, e mais especificamente os médicos. Ficou evidente nestes 2 dias de encontros e reuniões, no SUS e em um hospital privado: a grande maioria dos médicos (pelo menos os de Dourados) não quer ver, não quer saber de que se trata esse tal parto humanizado. Pecam pela ignorância, ao se negarem a discutir e aprender sobre o assunto sem nenhuma justificativa, apenas com arrogância e covardia – seria cômico se não fosse trágico assistir um médico fugindo da roda para não conversar sobre suas práticas. Aqueles que puderam, fugiram... não apareceram! Justamente aqueles que mais precisavam entender quais são os anseios de suas clientes! Para aquele que se viu preso na conversa, houve até o argumento de que ele “apenas respeita a vontade da mulher”, quando todos ali sabiam que a única vontade que ele respeita é a da cesariana, se a mulher deseja o contrário, ou vai procurar outro médico ou vai ter uma indicação clínica indiscutível após as 37 semanas.

Trouxemos um médico obstetra, considerando as várias opiniões que somente este profissional estaria apto a discutir práticas de assistência com seus colegas. Mas a maioria dos colegas não quis ouvir, não quis saber. A grande maioria dos médicos continuará em seu pedestal de (falta de) sabedoria, sem saber o que é plano de parto, ou como ele pode incluir o acompanhante sem conflitos, ou como dar à mulher liberdade de posição, como efetivamente atender um parto segundo as bases científicas mais atuais.
Mas nada disso é novidade. Pesquisas mostram que a taxa de cesarianas e a mortalidade materna de um país é inversamente proporcional ao número de enfermeiras obstetras, obstetrizes ou midwifes disponíveis na assistência. Se continuarmos trilhando esse caminho, o futuro da assistência obstétrica no Brasil está nas mãos da enfermagem. O médico nunca será descartado, mas precisaremos de menos médicos, de preferência apenas aqueles que acreditam nas boas práticas e que entendem quando e como devem intervir.