quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Assistência ao parto que queremos!

Tenho lido e estudado muito sobre a mudança absolutamente necessária que precisamos sofrer para que possamos ter uma assistência digna e segura à gestação e ao parto (e ao recém nascido e abortos também)... pretendo voltar a escrever mais sobre isso (planos para 2012!!), mas por hora deixo um texto delicioso da Mariana, brasileira que mora no Canadá escreveu sobre a assistência ao parto em um país com saúde de 1o. mundo! (veja o texto original no blog Lá no Canadá).

O Brasil está começando a trilhar esse caminho com a Rede Cegonha, política do Ministério da Saúde cheia de possibilidades neste sentido... saiba mais no Portal da Saúde.


PS: Lembrando que o Brasil está caminhando para ser a 7a. economia mundial, porém a taxa de mortalidade está bem acima do razoável: morrem 100 mulheres por cem mil nascidos vivos. Na cidade de São Paulo, morrem 45 por cem mil nascidos vivos. Estes números vêm diminuindo nos últimos anos, porém continuam ainda muito elevados. (a OMS considera razoável até 20 mortes maternas por cem mil nascidos vivos.)




Grávida no Canadá (fonte: Blog Lá no Canadá)
(...) "Sou conhecida por ser a grávida de primeira viagem mais tranquila que muita gente já conheceu. Realmente, estou me sentindo ótima! Não tive enjoos e estamos todos muito saudáveis, então não me sinto no direito de reclamar ou de me preocupar com nada.


Acho que o fato de me sentir segura e bem acompanhada pelo sistema de saúde daqui também ajuda bastante na minha tranquilidade. Sempre soube que aqui no Canadá é tudo bem diferente do Brasil, mas não tinha muita idéia ainda de como seria. No fim das contas, as diferenças, para mim, contaram como pontos positivos e estou super satisfeita por estar grávida no Canadá e poder ter meu parto aqui.


Aqui você tem como escolher os meios, ou seja, a forma como você quer ter o seu acompanhamento pré-natal, mas o fim é sempre o mesmo: parto normal! Isso não tem como escolher, a não ser que você tenha uma gravidez de risco ou já tenha tido uma cesárea antes. No meu caso, estava indo à médica de família (como um clínico geral no Brasil) e, quando confirmamos a gravidez, ela me encaminhou pra um grupo de parteiras, médicas e doulas (explico o que é mais na frente) que trabalham juntas num programa custeado pelo governo, como tudo na saúde é aqui. Se eu quisesse, poderia ter um obstetra como eu certamente teria no Brasil, mas queria saber como era esse acompanhamento com parteiras de que tantas brasileiras falam e amam por aqui!


A idéia de evitar uma cesárea aqui é tão forte que uma das parteiras do meu programa comentou comigo numa consulta (inclusive, em cada consulta eu conheço uma diferente) que estava atendendo uma brasileira que fazia questão de ter cesárea e que, por conta disso, teve que ser encaminhada pra uma psicóloga pra tratar da "fobia" do parto normal. Outro exemplo é o de uma moça do meu trabalho que outro dia teve que passar por uma cesárea e estavam todos super preocupados com a situação dela, encaminhando e-mails a todo instante pra dar notícias e super aliviados depois por ouvir que tudo correu bem. Aqui a cesárea é considerada como, pra mim, deveria ser em qualquer canto do mundo: uma cirurgia evitável e super invasiva, com todos os riscos e ônus de qualquer cirurgia.


O conceito de parteira é completamente diferente do que muita gente imagina no Brasil. Aqui, elas passam por um curso universitário de normalmente 4 anos e tem um nível social e cultural como o nosso, ou seja, passam longe daquela coisa de parteira de interior ou dos tempos das avós/bisavós da gente. Elas receitam medicamento e solicitam exames como fazem os médicos e são quem acompanham a sua gravidez 100%, se assim você decidir. Aqui, apenas as parteiras são autorizadas a fazer o parto em casa, os médicos são proibidos.


Além da parteira, o outro conceito diferente por aqui é o da doula. Eu nunca tinha ouvido falar nesse tipo de profissional antes de ficar grávida. Ela aparece em cena quando chega a hora do parto e a sua função é de cuidar da grávida, física e emocionalmente. Através do meu programa, eu terei uma doula de graça, serviço que normalmente é pago. Eu devo encontrar com ela apenas 3 vezes: vou conhecê-la antes do parto, depois é pra ela que eu ligo primeiro quando achar que estou começando o trabalho de parto (e aí nos encontramos em casa ainda ou no hospital pra ela me ajudar a lidar com as contrações e com o parto em si) e, depois de tudo, ela faz uma visita de acompanhamento quando eu já estiver em casa.


O programa que estou indo chama-se SCBP e, tomando por base os comentários que ouço quando digo que estou indo lá, é muito bem conceituado aqui em Vancouver e escolhido por gente de outras cidades próximas, inclusive. Lá me disseram até que nem todas que tentam uma vaga conseguem... No início, eu e Dani (ai dele se não for comigo!) fomos a consultas individuais e depois começou o acompanhamento em grupo (poderia ter optado por continuar com as consultas individuais, mas, mais uma vez, queria poder experimentar o modelo completo do pré-natal daqui).

As consultas são uma vez por mês e começam a ficar quinzenais a partir do terceiro trimestre. No grupo, são discutidos temas pré-selecionados e de acordo com o estágio da gravidez e é ótimo poder ver como as outras grávidas (e seus maridos, que têm comparecido em massa!) se sentem também. No horário marcado todo mundo está lá e sozinhas tiramos a pressão, nos pesamos e fazemos um exame de urina no banheiro pra medir glicose e proteína. Depois, a parteira que acompanha o grupo faz um check-up ultra rápido na sua barriga (mede, apalpa e escuta o coraçãozinho do bebê) e fala brevemente do resultado de exames que você fez entre uma visita e outra, se for o caso - tudo isso ela faz entre 5 e 10 minutos! A idéia é levar para a discussão em grupo todas as perguntas, ansiedades, dúvidas e compartilhar o conhecimento. De fato, os encontros são muito ricos!


Os exames que fiz até agora foram poucos para os padrões brasileiros, mas o suficiente para os daqui. Comecei com o de urina e o de sangue pra confirmar a gravidez e medir algumas taxas. Ainda no primeiro trimestre fiz o primeiro ultrassom para, basicamente, confirmar o tempo de gravidez. Resolvemos também que faria os exames opcionais que determinam os riscos de anomalias genéticas como síndrome de down, pois caso houvesse algum indício poderíamos nos preparar desde já (aqui esse exame serve também como base para você abortar, se quiser). Entre a 18ª e a 22ª semana faz-se o segundo e último ultrassom pra avaliar e medir tudo. Foi um exame super detalhado e longo (30 a 40 minutos) e só deixaram Dani entrar na sala no fim, quando a técnica (quem faz ultrassom aqui não é médico), super simpática por sinal, passou mais uns bons 10 minutos mostrando as partes do corpo pra gente e explicando o que era o que (as futuras mamães normais ficam encantadas com o coraçãozinho batendo, mas eu fiquei quando vi a coluna, toda formadinha!). Aqui é proibido falar qual é o sexo do bebê antes da 20ª semana, mas ela revelou pra gente pois só faltava um dia pra completar. Semana passada eu fiz o teste opcional de diabetes gestacional e acho que não falta mais nada agora, só se precisar confirmar alguma condição que se desenvolva daqui pra a data do parto.


Outra coisa legal aqui é que, se você tem a cobertura de saúde estendida pela sua empresa, você pode usufruir de alguns acompanhamentos extras. No meu caso, decidi usar o plano da empresa pra cobrir parte das despesas com serviços profissionais particulares. O governo não cobre, mas se o plano da empresa paga, por que não? Falando com algumas pessoas, cheguei a uma chiropractor daqui especializada em grávidas e a uma clínica de massagem pré e pós-natal. Tudo para evitar dores na coluna, já que tenho um pequeno histórico. Outra vantagem do plano estendido é poder ficar em quarto individual no hospital sem custos adicionais (que seria pouco menos do que 200 dólares por diária no hospital para onde vou).


Concluindo, o que percebi até agora é que todo o modelo aqui gira em torno de uma condição normal de uma fase da vida do ser humano. Aqui as grávidas não têm preferência em fila ou em ônibus e são consideradas pessoas normais, sem privilégios. Grávida ansiosa e desesperada sofre um bocado aqui; ninguém vai alimentar as ânsias ou resolver as coisas quando você der um chilique... você também não vai conseguir fazer um terceiro ultrassom porque não conseguiu ver o sexo do bebê (a não ser pagando do seu bolso). Neste processo todo, estou tentando relaxar, aprender com o jeito como as coisas são aqui e, principalmente, confiar no sistema de saúde daqui - que, "apesar" de público e às vezes demorado, é justo, funciona e é reconhecido mundialmente por algum motivo." (...)